Todo dia é meu dia

Reflexões de uma mulher que após diagnóstico de câncer de mama, decidiu priorizar-se todos os dias. Não são reflexões sobre doenças...são reflexões sobre a vida!

domingo, 31 de dezembro de 2023

2023 acabou


2023 acaba hoje e foi um ano bem conturbado, confesso que por muitos dias do ano, eu senti pena de mim, especialmente os dias em que eu tive que lidar com as incertezas, com o diagnóstico assustador, tratamentos invasivos, arriscados e doloridos, mais uma cirurgia, além da sensação de falta de proteção.

Meu maior sonho é ver minha filha crescer, poder apoiá-la nas diversas fases de sua vida, seguir aprendendo e ensinando como lidar com as incertezas da vida.

E esse meu sonho fez com que eu mudasse o foco, deixei de olhar apenas para a tragédia que se formou em minha vida e comecei a olhar para as possibilidades que me restava.

E a partir daí, eu só encontrei amor, apoio, diversão, superação, resiliência, paciência, gratidão!

Eu não fiz absolutamente nada sozinha, tive apoio e compreensão constantes.

No ano em que mais senti dor, foi também o que mais me senti amada.

No ano em que eu perdi os fios de todo corpo, foi também o ano em que parei de procurar defeitos no espelho e passei a enxergar beleza.

No ano em que eu senti mais medo, foi também o que tive mais coragem...

Coragem para viver com alegria, mesmo com tamanho desafio.
Coragem para realizar meus sonhos de menina, para encarar um médico e também aulas de piano.
Coragem para encarar exames invasivos e também para aprender sobre escrita, sobre a vida com um grupo de mulheres especiais, aprender como nutrir meu corpo e minha mente. Coragem para mais uma cirurgia e também para aprender um esporte novo na praia e participar de um coral de final de ano.

É engraçado como sempre prometi iniciar atividade física na virada de muitos anos e o único ano que fui muito disciplinada e ativa fisicamente é justamente aquele que eu tinha todos os motivos para ficar debilitada e acamada.

Em 2023 não coube desculpas para se fazer o que tem que ser feito.

Em 2023 o medo não me paralisou, pelo contrário me lançou.

Em 2023 foi o ano que mais compareci em hospitais e o que mais tive a sensação de ser saudável.

Em 2023 vivi o que há de mais ambíguo e entres altos e baixos, posso afirmar que não foi o pior, não foi o melhor, foi o meu ano, o que eu mais aprendi a cuidar de mim, pedir ajuda e me surpreender com a minha capacidade de me reerguer.

Agradeço todas as pessoas que comigo estiveram nesta fase, jamais esquecerei.


domingo, 17 de dezembro de 2023

Aceitação

 

Eu minto quando digo que aceitei. Eu ainda questiono por que este diagnóstico aconteceu comigo.
A única diferença entre agora e o começo é que não alimento mais estes pensamentos.
Eu paro e penso, não adianta eu questionar, não vai mudar. Isto tem me ajudado a seguir em frente, na esperança de que tudo isso ficará apenas na minha história como uma d
ificuldade que foi vivida e superada.
Antes de conseguir parar de questionar sem encontrar respostas satisfatórias, eu sentia raiva...uma raiva que não era direcionada a uma pessoa, mas ao universo. É um sentimento horrível, porque eu acabava querendo apagar isto da minha  história, me sentindo preterida, zero a esquerda, pagando por alguma coisa e meus pensamentos ficavam em loop em todos os erros que cometi na vida, uma busca insana por querer justificar, como se eu estivesse em dívida e tinha que pagar.
Este tipo de sentimento não faz bem a ninguém e era potencializado em cada palavra que eu recebia de outras pessoas.
Já ouvi de tudo, desde que o câncer é ressentimento guardado até que é um convite a vida. Ouvi que precisava de mais fé, de relaxar, de me defender da inveja alheia e que este diagnóstico só aparece em pessoas fortes. Muitas vezes eu senti repulsa pelo que eu ouvi, até mesmo em narrativas carinhosas que as pessoas de alguma forma queriam me consolar, como por exemplo, agora você vai ajudar muita gente! Eu sorria e imediatamente saia de perto, com passos firmes e ligeiros, com uma vontade de desaparecer ou de esquecer o que acabava de ouvir.
Era uma indignação! Ouvir que agora iria ajudar pessoas, se foi só isso que fiz a vida inteira? Desde minha maneira de viver até minhas escolhas profissionais eram direcionadas para ajudar o outro.
Não faz o menor sentido eu ganhar um diagnóstico deste para ajudar outras pessoas, se  isso foi exatamente tudo que fiz na vida.
E quanto mais eu me revoltava com esta fala, mais entrava em contato com ela, a maioria das influenciadoras, blogueiras, divulgadoras de câncer de mama, carrega este lema, “aconteceu comigo para eu ajudar muitas mulheres a se salvarem”.
Na mesma medida em que eu sentia tanta raiva, sentia também que havia algo errado comigo, por que eu me achava inadequada, egoísta e isto alimentava outro sentimento, o de não merecer a cura.
Olha o que nossos pensamentos podem fazer conosco, um questionamento vira um buraco sem fundo de projeções terríveis contra si mesmo.
Sair deste buraco é libertador, atualmente, eu olho ele de cima, como quem sabe já o que tem lá embaixo e não permite mais se jogar.
Toda vez que estes pensamentos aparecem, algo em mim diz, “pera lá”...vamos parar com isso, não há respostas, apenas vamos cuidar do que precisa ser cuidado, vamos viver o agora e ser feliz enquanto temos esta oportunidade.
Hoje, eu acredito que sim, que posso ajudar outras pessoas, não como uma missão do diagnóstico ou obrigatoriedade, mas como algo que eu sempre tive prazer em fazer, sem pressão, sem metas, com carinho e senso de coletividade.
Tenho consciência de que é importante vivenciar todos os sentimentos, mesmo os mais ditos negativos, eles podem ser tão ou mais importantes do que os positivos, para que possamos nos enxergar, nos conhecer, aprender e nos reerguer.

sábado, 25 de novembro de 2023

13º andar


 

Ontem foi meu último dia no 13º andar do hospital, é o último andar, os frequentadores são pessoas que fazem quimioterapia, imunoterapia ou terapia alvo, termos que passei a conhecer há um ano. Quando eu descobri a localização deste lugar, lembrei de uma história que um amigo que tenho desde o Ensino Médio e já morou no Japão me contou há uns 30 anos. No Japão, os alunos mais experientes vão estudando em classes em andares mais altos, começam no térreo e no último ano suas salas ficam no último andar. Lembrei dele falando que era um desejo e uma honra para todos chegarem lá. Lembro que fiz uma brincadeira do tipo sarcástica, aqui no Brasil, o último andar é da derrota. E foi exatamente assim que me senti quando o elevador abriu, logo de frente ficam os atendentes, todos organizados, com um letreiro gigante atrás deles, escrito QUIMIOTERAPIA. Sou uma derrotada! Peguei a senha e me dirigi para sala de espera, que não dá para ver da recepção, lembro como se fosse hoje, a sala cheia, muitas mulheres. Sabe aquele sentimento de quem não quer acreditar? De todo meu processo de cura, creio que ali senti o maior sofrimento de todos. Fiquei tão impactada com a quantidade de mulheres jovens, magras e carecas. Cheguei a questionar o meu marido, o que eu fiz de errado para estar aqui? E chorei. O primeiro dia foi impactante demais, eu sabia que teria que frequentar aquele lugar por um ano. Medo, tristeza, raiva, vergonha, desânimo foram as emoções que senti naquele dia. 

Ontem eu estava muito animada, quis registrar tudo, apertei para 13º pela última vez, fotografei nós dois no elevador, minha última senha, nossa espera, meu lanchinho, as mulheres carecas estavam lindas e fortes. Teve chuva, teve trânsito, teve espera de 3 horas, mas nada tirou meus bons sentimentos. E olhando as fotos que eu tirei, percebi que a imagem que eu tinha do letreiro escrito quimioterapia era na realidade muito menor do que a que eu tinha em mente. Foi tão significativo observar isso! É como materializar que todos os obstáculos que temos na vida, cresce e se potencializa na nossa mente, quanto que a realidade apresenta outro tamanho. 

Não foi um ano fácil, não passou rápido, não foi derrota, foi possível, foi ... ainda tenho um longo caminho pela frente e meu maior desejo é que eu não volte para 13º andar nunca mais.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Outra Fabiana

Hoje a Orientadora Educacional me trouxe a notícia, um aluno do terceiro ano estava desesperado porque sua mãe foi diagnosticada com câncer de mama.

Fui a seu encontro, queria poder levar alguma tranquilidade, porque sei o quanto este momento de descoberta é assustador, o quanto nos sentimos perdidos e sem chão.

“Hoje tem três dias que ela descobriu”, ele disse com a voz embargada e já de saída. Acrescentou que sua mãe estava lá fora o esperando. O acompanhei até a saída, ele completou, “ela também se chama Fabiana, Diretora!”, sorrimos com lágrimas nos olhos. Perguntei quantos anos, ele disse “45”. A mesma idade que a minha!

Ela estava no carro, fui a seu encontro,  olhos nos olhos e me mantive firme, mesmo querendo chorar, disse “sinto muito”. Coloquei-me a disposição para conversar, para acolher suas dúvidas ou qualquer outra coisa que ela possa imaginar que eu tenho a contribuir.

Passou um filme na minha mente, sei este momento é de muita dor, provavelmente culpa, desproteção e claro...muito medo.

Fiquei pensando em quantas Fabianas, mães, de 45 anos por este mundo, estão hoje com medo de deixarem seus filhos, imaginando que são muito novas para passar por isso, se perguntando onde foi que erraram e o que vai ser do seu futuro.

Lembrei de uma das rodas de conversa com pessoas com câncer e familiares que frequentei, havia um menino desolado, um jovem, que queria encontrar razões para justificar o diagnóstico de sua mãe. Ele dizia repetidamente, “ela é tão boa, não merece!”. Era nítida sua dor e a falta de respostas sufocava ainda mais seu sofrimento. Algumas pessoas fizeram intervenções para consolá-lo, mas o que marcou foi a fala da psicóloga que disse, “coisas ruins acontecem com pessoas boas, ninguém está protegido das malfeitorias do mundo, porque é bom” e completou “uma coisa é certa, se ela é boa não evita o ruim, mas terá muita gente a ajudando durante este percurso”. “A bondade oferecida será a recompensada pelo apoio recebido”, alguém completou. A psicóloga terminou dizendo, “ninguém está em uma estrada esperando o câncer passar, todos nós ficamos surpresos e chocados com sua chegada, sem exceção.”

Nunca estamos preparados para um diagnóstico deste, nunca imaginamos que isto irá acontecer conosco...até acontecer...e daí em diante temos que tirar forças das nossas profundezas.

E é nesta busca por nossa força mais profunda é que renascemos...

Que todas as Fabianas sintam-se apoiadas, amadas, e consigam se reerguer, renascer, ressurgir...


sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Um dia desses na sala de PetScan

Todos que se encontram nesta sala de espera, com cerca de 20 cadeiras, estão ou já passaram por tratamento oncológico.

Hoje estão falantes, eu revezo meu livro com celular, não estou para papo, mas  não deixo de observar.

Já escutei tantos Graças a Deus nesta sala, que até parece um ambiente religioso.

E isto me faz pensar, o quanto em meio a condições de tamanha insegurança e falta de controle, podemos ser otimistas e resilientes.

Estamos aqui para literalmente scanear o corpo em busca de nada.

Não queremos que apareça nada... mas já temos...e toda vez que um nome é chamado, há um coro de boa sorte.
Otimismo, resiliência e torcida.

Quantas vezes você reclamando da vida, ouviu de alguém que você deveria ir ao hospital do câncer para ver o que é vida de verdade?

Você já disse isso para alguém?

E quando ouvimos ou falamos...qual é a imagem que vem em nossa mente?

Pessoas em sofrimento intenso, arrependidas, querendo suas vidas de volta.

Pode existir isso também...

Essa imagem é rotulada por filmes, novelas, dramas...mas nem sempre é assim.

O que eu vejo hoje aqui é de maior aprendizado, porque talvez ver alguém acamado, fraco, querendo a vida de volta, te faça apenas sentir pena.
Aqui nesta sala, onde estou...não cabe este sentimento.

Recomendo assim como muitos, que você que está reclamando da vida, pensando em morte, querendo desistir de tudo... mesmo com os exames nota 10, venha aqui, ouvir um pouquinho.

Aqui você vai aprender a encarar um problema de frente, parar de dar desculpas para suas dores e olhar para ela querendo resolver, vai encontrar disposição, palavras de encorajamento, dicas de exercícios físicos, de o que fazer nas horas livres para equilibrar a vida entre estresse do dia a dia e  felicidade, vai ouvir falar bem dos médicos que são comparados a anjos, vai aprender através dos relatos que todos foram salvos por si, com ajuda dos anjos, mas por persistência de si mesmo em busca de amparar suas dores, desconfortos ou sinais pelo corpo.

Eu olho para todos, devagar, vou tentar adivinhar a idade de cada um. Hoje há um menino de uns 17 anos, a princípio fiquei em choque quando ele entrou, mas agora eu vejo que apesar dele estar tão quieto quanto eu... está aprendendo sobre a tão misteriosa e descontrolada vida.

Aqui eu sinto o que há de mais nítido da vontade de viver, da procura pela cura, da crença por dias melhores, a melhor torcida reunida...e ninguém se conhece.

Olho para todos e consigo enxergar o verdadeiro significado da palavra saúde.

E para você o que é ter saúde?

Registro dos primeiros livros que comprou sozinha

Roupa brega, dizia o bilhete enviado pela professora. É semana do Dia das Crianças, sempre tem muita brincadeira e magia. E lá estava ela com umas oito cores, três estampas, de meias e sandálias, um coque no meio da cabeça, com laço colorido. Antes de sair, falou sobre sua preocupação em ser a única a ir com roupa bem brega para escola e agiu, criou uma roupa estratégica, uma calça cheia de estampas, por baixo de um shorts cheio de flores, a blusinha tinha flores também e caso fosse a única brega da escola, tiraria a calça e ficaria com uma roupa alegre. Achei criativo e de certa forma, cheio de autoproteção.

Deu a hora de buscá-la, saiu feliz da escola, mais que o normal, não precisou mudar a roupa. Não chegou a 1,30m ainda, mas já cresceu tanto! Na mão dois livros novos. Olhou para mim e disse bem assim: “eu sabia que você não acharia ruim eu gastar meu dinheiro com livros e teve uma feira do livro, resolvi comprar.” Eu sorri! Um sorriso do tipo derretido.

É claro que a grande maioria das mães não acharia ruim, afinal são livros. Mas o que me deixou derretida é que ela está na fase em que precisa de aprovação para seus gastos, mesmo tendo uma mesadinha. E quanta segurança! O olhar interessado para os livros, a vontade de adquirir, a ousadia e a certeza em estar fazendo a coisa certa.  A achei incrivelmente madura, sem deixar de ser criança.

Que Semana da Criança reveladora! Uma criança feliz, descabelada, colorida, cheia de estratégias e atitude, vindo em minha direção com dois livros novos na mão.

Quem ganhou presente fui eu.


Bandeirinhas Juninas


Nas minhas caminhadas diárias costumo mudar o caminho. Hora vou por avenidas movimentadas, hora vou por ruas calmas e vazias.

Ultimamente mesmo mudando o caminho, procuro passar todos os dias por uma rua específica, onde tem um prédio com a quadra de futebol, lotada de bandeirinhas de festa junina. Este fato passaria totalmente despercebido se não estivéssemos em outubro.

Gosto de passar e ficar imaginando quantas pessoas daquele prédio se uniram para colocar as bandeirinhas lá, quantos dias festejaram, será que teve convidados de fora? ou será que foi um funcionário que enfeitou sozinho aquela quadra? Sigo imaginando, criando histórias na minha mente, como uma forma de alimentar minha imaginação e espairecer. É divertido passar, contabilizar os dias e pensar nas mais diversas histórias que podem ter ocorrido ali.

Hoje interrompi por alguns segundos minha caminhada, parei a frente do prédio e fotografei, imediatamente pensei no quanto vamos deixando para o outro dia situações que não fazem mais sentido, que muitas vezes tivemos uma empolgação inicial, que nos fizeram feliz, mas que não faz mais sentido estar lá.

Quantos problemas não resolvemos e acabamos nos acomodando, mesmo em nossa frente, nos acostumamos e nem o enxergamos mais, não tiramos, deixamos para amanhã, amanhã, amanhã.... e lá se vão dias, semanas, meses...

Quantos de nós fugimos daquela conversa difícil, não marcamos o exame que o médico pediu, postergamos melhorar a alimentação, a visita a amiga, mesmo com saudades, acumulamos quilinhos, arrumamos desculpas para não nos exercitar...enfim
Quanto de nossa vida são bandeirinhas juninas esquecidas dentro de nós?


Um ano depois

Faz um ano do pior dia da minha vida, tive a notícia que ninguém quer receber, estava lá na minha frente, com meus dados completos – carcino...