Eu minto quando digo que aceitei. Eu ainda questiono por que
este diagnóstico aconteceu comigo.
A única diferença entre agora e o começo é
que não alimento mais estes pensamentos.
Eu paro e penso, não adianta eu
questionar, não vai mudar. Isto tem me ajudado a seguir em frente, na esperança
de que tudo isso ficará apenas na minha história como uma dificuldade que foi vivida
e superada.
Antes de conseguir parar de questionar sem encontrar respostas
satisfatórias, eu sentia raiva...uma raiva que não era direcionada a uma
pessoa, mas ao universo. É um sentimento horrível, porque eu acabava querendo
apagar isto da minha história, me
sentindo preterida, zero a esquerda, pagando por alguma coisa e meus pensamentos ficavam em loop em todos os erros que
cometi na vida, uma busca insana por querer justificar, como se eu estivesse em
dívida e tinha que pagar.
Este tipo de sentimento não faz bem a ninguém e era potencializado em cada palavra que eu recebia de outras pessoas.
Já ouvi de
tudo, desde que o câncer é ressentimento guardado até que é um convite a vida. Ouvi
que precisava de mais fé, de relaxar, de me defender da inveja alheia e que este
diagnóstico só aparece em pessoas fortes. Muitas vezes eu senti repulsa pelo
que eu ouvi, até mesmo em narrativas carinhosas que as pessoas de alguma forma
queriam me consolar, como por exemplo, agora você vai ajudar muita
gente! Eu sorria e imediatamente saia de perto, com passos firmes e ligeiros,
com uma vontade de desaparecer ou de esquecer o que acabava de ouvir.
Era uma
indignação! Ouvir que agora iria ajudar pessoas, se foi só isso que
fiz a vida inteira? Desde minha maneira de viver até minhas escolhas
profissionais eram direcionadas para ajudar o outro.
Não faz o menor sentido eu
ganhar um diagnóstico deste para ajudar outras pessoas, se isso foi exatamente tudo que
fiz na vida.
E quanto mais eu me revoltava com esta fala, mais entrava
em contato com ela, a maioria das influenciadoras, blogueiras, divulgadoras de
câncer de mama, carrega este lema, “aconteceu comigo para eu ajudar muitas
mulheres a se salvarem”.
Na mesma medida em que eu sentia tanta raiva, sentia
também que havia algo errado comigo, por que eu me achava inadequada, egoísta e
isto alimentava outro sentimento, o de não merecer a cura.
Olha o que nossos
pensamentos podem fazer conosco, um questionamento vira um buraco sem fundo de
projeções terríveis contra si mesmo.
Sair deste buraco é libertador, atualmente,
eu olho ele de cima, como quem sabe já o que tem lá embaixo e não permite mais
se jogar.
Toda vez que estes pensamentos aparecem, algo em mim diz, “pera lá”...vamos parar com
isso, não há respostas, apenas vamos cuidar do que precisa ser cuidado, vamos
viver o agora e ser feliz enquanto temos esta oportunidade.
Hoje, eu acredito
que sim, que posso ajudar outras pessoas, não como uma missão do diagnóstico ou
obrigatoriedade, mas como algo que eu sempre tive prazer em fazer, sem pressão,
sem metas, com carinho e senso de coletividade.
Tenho consciência de que é importante vivenciar todos os
sentimentos, mesmo os mais ditos negativos, eles podem ser tão ou mais importantes
do que os positivos, para que possamos nos enxergar, nos conhecer, aprender e
nos reerguer.
Todo dia é meu dia
Reflexões de uma mulher que após diagnóstico de câncer de mama, decidiu priorizar-se todos os dias. Não são reflexões sobre doenças...são reflexões sobre a vida!
domingo, 17 de dezembro de 2023
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