Ontem foi meu último dia no 13º andar do hospital, é o último andar, os frequentadores são pessoas que fazem quimioterapia, imunoterapia ou terapia alvo, termos que passei a conhecer há um ano. Quando eu descobri a localização deste lugar, lembrei de uma história que um amigo que tenho desde o Ensino Médio e já morou no Japão me contou há uns 30 anos. No Japão, os alunos mais experientes vão estudando em classes em andares mais altos, começam no térreo e no último ano suas salas ficam no último andar. Lembrei dele falando que era um desejo e uma honra para todos chegarem lá. Lembro que fiz uma brincadeira do tipo sarcástica, aqui no Brasil, o último andar é da derrota. E foi exatamente assim que me senti quando o elevador abriu, logo de frente ficam os atendentes, todos organizados, com um letreiro gigante atrás deles, escrito QUIMIOTERAPIA. Sou uma derrotada! Peguei a senha e me dirigi para sala de espera, que não dá para ver da recepção, lembro como se fosse hoje, a sala cheia, muitas mulheres. Sabe aquele sentimento de quem não quer acreditar? De todo meu processo de cura, creio que ali senti o maior sofrimento de todos. Fiquei tão impactada com a quantidade de mulheres jovens, magras e carecas. Cheguei a questionar o meu marido, o que eu fiz de errado para estar aqui? E chorei. O primeiro dia foi impactante demais, eu sabia que teria que frequentar aquele lugar por um ano. Medo, tristeza, raiva, vergonha, desânimo foram as emoções que senti naquele dia.
Ontem eu estava muito animada, quis registrar tudo, apertei para 13º pela última vez, fotografei nós dois no elevador, minha última senha, nossa espera, meu lanchinho, as mulheres carecas estavam lindas e fortes. Teve chuva, teve trânsito, teve espera de 3 horas, mas nada tirou meus bons sentimentos. E olhando as fotos que eu tirei, percebi que a imagem que eu tinha do letreiro escrito quimioterapia era na realidade muito menor do que a que eu tinha em mente. Foi tão significativo observar isso! É como materializar que todos os obstáculos que temos na vida, cresce e se potencializa na nossa mente, quanto que a realidade apresenta outro tamanho.
Não foi um ano fácil, não passou rápido, não foi
derrota, foi possível, foi ... ainda tenho um longo caminho pela frente e meu
maior desejo é que eu não volte para 13º andar
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