Todo dia é meu dia

Reflexões de uma mulher que após diagnóstico de câncer de mama, decidiu priorizar-se todos os dias. Não são reflexões sobre doenças...são reflexões sobre a vida!

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Outra Fabiana

Hoje a Orientadora Educacional me trouxe a notícia, um aluno do terceiro ano estava desesperado porque sua mãe foi diagnosticada com câncer de mama.

Fui a seu encontro, queria poder levar alguma tranquilidade, porque sei o quanto este momento de descoberta é assustador, o quanto nos sentimos perdidos e sem chão.

“Hoje tem três dias que ela descobriu”, ele disse com a voz embargada e já de saída. Acrescentou que sua mãe estava lá fora o esperando. O acompanhei até a saída, ele completou, “ela também se chama Fabiana, Diretora!”, sorrimos com lágrimas nos olhos. Perguntei quantos anos, ele disse “45”. A mesma idade que a minha!

Ela estava no carro, fui a seu encontro,  olhos nos olhos e me mantive firme, mesmo querendo chorar, disse “sinto muito”. Coloquei-me a disposição para conversar, para acolher suas dúvidas ou qualquer outra coisa que ela possa imaginar que eu tenho a contribuir.

Passou um filme na minha mente, sei este momento é de muita dor, provavelmente culpa, desproteção e claro...muito medo.

Fiquei pensando em quantas Fabianas, mães, de 45 anos por este mundo, estão hoje com medo de deixarem seus filhos, imaginando que são muito novas para passar por isso, se perguntando onde foi que erraram e o que vai ser do seu futuro.

Lembrei de uma das rodas de conversa com pessoas com câncer e familiares que frequentei, havia um menino desolado, um jovem, que queria encontrar razões para justificar o diagnóstico de sua mãe. Ele dizia repetidamente, “ela é tão boa, não merece!”. Era nítida sua dor e a falta de respostas sufocava ainda mais seu sofrimento. Algumas pessoas fizeram intervenções para consolá-lo, mas o que marcou foi a fala da psicóloga que disse, “coisas ruins acontecem com pessoas boas, ninguém está protegido das malfeitorias do mundo, porque é bom” e completou “uma coisa é certa, se ela é boa não evita o ruim, mas terá muita gente a ajudando durante este percurso”. “A bondade oferecida será a recompensada pelo apoio recebido”, alguém completou. A psicóloga terminou dizendo, “ninguém está em uma estrada esperando o câncer passar, todos nós ficamos surpresos e chocados com sua chegada, sem exceção.”

Nunca estamos preparados para um diagnóstico deste, nunca imaginamos que isto irá acontecer conosco...até acontecer...e daí em diante temos que tirar forças das nossas profundezas.

E é nesta busca por nossa força mais profunda é que renascemos...

Que todas as Fabianas sintam-se apoiadas, amadas, e consigam se reerguer, renascer, ressurgir...


sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Um dia desses na sala de PetScan

Todos que se encontram nesta sala de espera, com cerca de 20 cadeiras, estão ou já passaram por tratamento oncológico.

Hoje estão falantes, eu revezo meu livro com celular, não estou para papo, mas  não deixo de observar.

Já escutei tantos Graças a Deus nesta sala, que até parece um ambiente religioso.

E isto me faz pensar, o quanto em meio a condições de tamanha insegurança e falta de controle, podemos ser otimistas e resilientes.

Estamos aqui para literalmente scanear o corpo em busca de nada.

Não queremos que apareça nada... mas já temos...e toda vez que um nome é chamado, há um coro de boa sorte.
Otimismo, resiliência e torcida.

Quantas vezes você reclamando da vida, ouviu de alguém que você deveria ir ao hospital do câncer para ver o que é vida de verdade?

Você já disse isso para alguém?

E quando ouvimos ou falamos...qual é a imagem que vem em nossa mente?

Pessoas em sofrimento intenso, arrependidas, querendo suas vidas de volta.

Pode existir isso também...

Essa imagem é rotulada por filmes, novelas, dramas...mas nem sempre é assim.

O que eu vejo hoje aqui é de maior aprendizado, porque talvez ver alguém acamado, fraco, querendo a vida de volta, te faça apenas sentir pena.
Aqui nesta sala, onde estou...não cabe este sentimento.

Recomendo assim como muitos, que você que está reclamando da vida, pensando em morte, querendo desistir de tudo... mesmo com os exames nota 10, venha aqui, ouvir um pouquinho.

Aqui você vai aprender a encarar um problema de frente, parar de dar desculpas para suas dores e olhar para ela querendo resolver, vai encontrar disposição, palavras de encorajamento, dicas de exercícios físicos, de o que fazer nas horas livres para equilibrar a vida entre estresse do dia a dia e  felicidade, vai ouvir falar bem dos médicos que são comparados a anjos, vai aprender através dos relatos que todos foram salvos por si, com ajuda dos anjos, mas por persistência de si mesmo em busca de amparar suas dores, desconfortos ou sinais pelo corpo.

Eu olho para todos, devagar, vou tentar adivinhar a idade de cada um. Hoje há um menino de uns 17 anos, a princípio fiquei em choque quando ele entrou, mas agora eu vejo que apesar dele estar tão quieto quanto eu... está aprendendo sobre a tão misteriosa e descontrolada vida.

Aqui eu sinto o que há de mais nítido da vontade de viver, da procura pela cura, da crença por dias melhores, a melhor torcida reunida...e ninguém se conhece.

Olho para todos e consigo enxergar o verdadeiro significado da palavra saúde.

E para você o que é ter saúde?

Registro dos primeiros livros que comprou sozinha

Roupa brega, dizia o bilhete enviado pela professora. É semana do Dia das Crianças, sempre tem muita brincadeira e magia. E lá estava ela com umas oito cores, três estampas, de meias e sandálias, um coque no meio da cabeça, com laço colorido. Antes de sair, falou sobre sua preocupação em ser a única a ir com roupa bem brega para escola e agiu, criou uma roupa estratégica, uma calça cheia de estampas, por baixo de um shorts cheio de flores, a blusinha tinha flores também e caso fosse a única brega da escola, tiraria a calça e ficaria com uma roupa alegre. Achei criativo e de certa forma, cheio de autoproteção.

Deu a hora de buscá-la, saiu feliz da escola, mais que o normal, não precisou mudar a roupa. Não chegou a 1,30m ainda, mas já cresceu tanto! Na mão dois livros novos. Olhou para mim e disse bem assim: “eu sabia que você não acharia ruim eu gastar meu dinheiro com livros e teve uma feira do livro, resolvi comprar.” Eu sorri! Um sorriso do tipo derretido.

É claro que a grande maioria das mães não acharia ruim, afinal são livros. Mas o que me deixou derretida é que ela está na fase em que precisa de aprovação para seus gastos, mesmo tendo uma mesadinha. E quanta segurança! O olhar interessado para os livros, a vontade de adquirir, a ousadia e a certeza em estar fazendo a coisa certa.  A achei incrivelmente madura, sem deixar de ser criança.

Que Semana da Criança reveladora! Uma criança feliz, descabelada, colorida, cheia de estratégias e atitude, vindo em minha direção com dois livros novos na mão.

Quem ganhou presente fui eu.


Bandeirinhas Juninas


Nas minhas caminhadas diárias costumo mudar o caminho. Hora vou por avenidas movimentadas, hora vou por ruas calmas e vazias.

Ultimamente mesmo mudando o caminho, procuro passar todos os dias por uma rua específica, onde tem um prédio com a quadra de futebol, lotada de bandeirinhas de festa junina. Este fato passaria totalmente despercebido se não estivéssemos em outubro.

Gosto de passar e ficar imaginando quantas pessoas daquele prédio se uniram para colocar as bandeirinhas lá, quantos dias festejaram, será que teve convidados de fora? ou será que foi um funcionário que enfeitou sozinho aquela quadra? Sigo imaginando, criando histórias na minha mente, como uma forma de alimentar minha imaginação e espairecer. É divertido passar, contabilizar os dias e pensar nas mais diversas histórias que podem ter ocorrido ali.

Hoje interrompi por alguns segundos minha caminhada, parei a frente do prédio e fotografei, imediatamente pensei no quanto vamos deixando para o outro dia situações que não fazem mais sentido, que muitas vezes tivemos uma empolgação inicial, que nos fizeram feliz, mas que não faz mais sentido estar lá.

Quantos problemas não resolvemos e acabamos nos acomodando, mesmo em nossa frente, nos acostumamos e nem o enxergamos mais, não tiramos, deixamos para amanhã, amanhã, amanhã.... e lá se vão dias, semanas, meses...

Quantos de nós fugimos daquela conversa difícil, não marcamos o exame que o médico pediu, postergamos melhorar a alimentação, a visita a amiga, mesmo com saudades, acumulamos quilinhos, arrumamos desculpas para não nos exercitar...enfim
Quanto de nossa vida são bandeirinhas juninas esquecidas dentro de nós?


Você perdeu a alegria de viver! Será?

Esta semana ouvi: “você perdeu a alegria de viver”. Contestei! Como assim? De forma alguma! Mas a pessoa foi insistente, disse que desde o início do meu diagnóstico havia me alertado sobre esta possibilidade.

Era mais ou menos assim: “Eu te avisei...lá atrás! Não perca sua alegria de viver”.
Respondi calmamente que era impressão e ele completou dizendo que  até a outra pessoa de nossa convivência no trabalho confirmava.

Imagina! me despedi e segui em frente.

O que ele sabe sobre mim? Sobre minha vida? Sobre minhas alegrias? E por mais que estas perguntas me trazem respostas reconfortantes. Senti raiva!

Fiquei remoendo um pensamento de suposições sobre minhas atitudes que fizeram com que ele chegasse a esta conclusão. É cansativo!

O cansaço vem dessas situações em que parece que devo provar algo para as pessoas, onde elas se sentem confortáveis em me dar sugestões, conselhos sem que eu as solicite. É revoltante!

Revoltante conviver com julgamento tão raso das pessoas, que nos colocam em caixinhas de sofrimento, cheias de rótulos, e é só enxergam o que querem. É triste!

Triste porque além de conviver com todas as condições impostas pela doença, ainda temos esses caprichos ou seria uma necessidade de reafirmar o sofrimento alheio para sentirem-se melhor. Não sei! É confuso!

As coisas poderiam ser mais simples, com menos achismos, com mais olhos nos olhos, mãos que apoiam, bocas que sorriem e palavras que acalentam, incentivam e trazem paz.

Mas já aprendi que a paz eu mesma tenho que buscar e o caminho é simples, deixar de alimentar os pensamentos que insistem em buscar respostas, praticamente me culpando. E assim faço!

Mas antes, me vem à mente uma resposta que encerra o assunto na minha cabeça: uma das coisas que eu perdi, não foi alegria de viver, mas sim a necessidade de agradar a todos e portanto, talvez eu esteja realmente sorrindo menos. E sabe aquela história da diferença entre qualidade e quantidade... pois é... meu sorriso é de qualidade, autêntico, livre e cheio de alegria.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Reconhecendo milagre

A tristeza voltou a me acompanhar, entre pensamentos circulares, suspiro!
A voz da médica caminha comigo.
Somos 4, eu, a tristeza, o suspiro e a voz.
- Vamos ter que operar, diz ela!
De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de errado? Apenas um ano da última grande cirurgia. De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de errado? Apenas um ano da última grande cirurgia.

Penso em como seria bom um milagre.
Justo a parte de mim que me trouxe a coisa mais linda que tenho.
Justo a parte de mim que realizou meu sonho.
Justo a parte que foi sempre antagônica...
Hora o medo de engravidar...
Hora o medo de não engravidar.
Todo meu feminino fértil se vai...serei mutilada...não sei me despedir!

Entre um pensamento e outro, há demandas do trabalho.
O tempo não para, chega a hora de ir buscar minha filha.

Entro no carro, a música diz:

“Enquanto isso, não nos custa insistir
Na questão do desejo, não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê que o inferno é aqui

Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal, a cura”

No trajeto, ainda com a música tocando, reparo na bike a frente do meu carro, calculando como desviar, percebo que o ciclista tem duas pernas mecânicas.

Meus olhos se arregalam e começo a enxergar a palavra mutilação de outro jeito.
Tem movimento, tem forma, tem possibilidade, tem vida...

O ultrapasso, olho pelo retrovisor e o vejo pela primeira vez ao vivo.
É o Paué!
Quase não posso acreditar no que vejo.

Paué é um rapaz da minha região, que no início dos anos 2000, sofreu um acidente na linha do trem e perdeu as duas pernas.
Por ser jovem demais, na época, houve uma comoção na cidade.
Sei sua história, li seu livro, vi seu filme e fiz muitos alunos assistirem.
Paué logo depois do acidente tomou conta da mídia, porque ele surfa, corre, faz ciclismo, é um atleta, sem suas duas pernas.
Ele é exemplo de resiliência para mim!
Mas nunca havia encontrado com ele pessoalmente.

Todo sofrimento dele é memorável, mas um diálogo que aparece no livro e no filme, ficou marcante para mim. 
Quando ele estava prestes a deixar o hospital, ele perguntou para sua mãe:
- E agora mãe, como vou seguir em frente? Como as pessoas vão me olhar?
E a mãe relata que foi até o banheiro, fez uma oração, voltou e respondeu: 
- As pessoas vão te olhar como você se apresentar. Apenas vamos!

E assim sigo...a música, a lembrança, a desmistificação da palavra mutilação, me confortam de uma tal maneira, que tenho a sensação que fui atendida:  um pequeno milagre aconteceu!

Agora nós 4 demos espaço para esperança
.


Um ano depois

Faz um ano do pior dia da minha vida, tive a notícia que ninguém quer receber, estava lá na minha frente, com meus dados completos – carcino...