Todo dia é meu dia

Reflexões de uma mulher que após diagnóstico de câncer de mama, decidiu priorizar-se todos os dias. Não são reflexões sobre doenças...são reflexões sobre a vida!

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Reconhecendo milagre

A tristeza voltou a me acompanhar, entre pensamentos circulares, suspiro!
A voz da médica caminha comigo.
Somos 4, eu, a tristeza, o suspiro e a voz.
- Vamos ter que operar, diz ela!
De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de errado? Apenas um ano da última grande cirurgia. De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de errado? Apenas um ano da última grande cirurgia.

Penso em como seria bom um milagre.
Justo a parte de mim que me trouxe a coisa mais linda que tenho.
Justo a parte de mim que realizou meu sonho.
Justo a parte que foi sempre antagônica...
Hora o medo de engravidar...
Hora o medo de não engravidar.
Todo meu feminino fértil se vai...serei mutilada...não sei me despedir!

Entre um pensamento e outro, há demandas do trabalho.
O tempo não para, chega a hora de ir buscar minha filha.

Entro no carro, a música diz:

“Enquanto isso, não nos custa insistir
Na questão do desejo, não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê que o inferno é aqui

Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal, a cura”

No trajeto, ainda com a música tocando, reparo na bike a frente do meu carro, calculando como desviar, percebo que o ciclista tem duas pernas mecânicas.

Meus olhos se arregalam e começo a enxergar a palavra mutilação de outro jeito.
Tem movimento, tem forma, tem possibilidade, tem vida...

O ultrapasso, olho pelo retrovisor e o vejo pela primeira vez ao vivo.
É o Paué!
Quase não posso acreditar no que vejo.

Paué é um rapaz da minha região, que no início dos anos 2000, sofreu um acidente na linha do trem e perdeu as duas pernas.
Por ser jovem demais, na época, houve uma comoção na cidade.
Sei sua história, li seu livro, vi seu filme e fiz muitos alunos assistirem.
Paué logo depois do acidente tomou conta da mídia, porque ele surfa, corre, faz ciclismo, é um atleta, sem suas duas pernas.
Ele é exemplo de resiliência para mim!
Mas nunca havia encontrado com ele pessoalmente.

Todo sofrimento dele é memorável, mas um diálogo que aparece no livro e no filme, ficou marcante para mim. 
Quando ele estava prestes a deixar o hospital, ele perguntou para sua mãe:
- E agora mãe, como vou seguir em frente? Como as pessoas vão me olhar?
E a mãe relata que foi até o banheiro, fez uma oração, voltou e respondeu: 
- As pessoas vão te olhar como você se apresentar. Apenas vamos!

E assim sigo...a música, a lembrança, a desmistificação da palavra mutilação, me confortam de uma tal maneira, que tenho a sensação que fui atendida:  um pequeno milagre aconteceu!

Agora nós 4 demos espaço para esperança
.


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