A tristeza voltou a me acompanhar, entre pensamentos
circulares, suspiro!
A voz da médica caminha comigo.
Somos 4, eu, a tristeza, o suspiro e a voz.
- Vamos ter que operar, diz ela!
De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de errado? Apenas um ano da
última grande cirurgia. De novo! Mais uma mutilação? Por quê? O que fiz de
errado? Apenas um ano da última grande cirurgia.
Penso em como seria bom um milagre.
Justo a parte de mim que me trouxe a coisa mais linda que tenho.
Justo a parte de mim que realizou meu sonho.
Justo a parte que foi sempre antagônica...
Hora o medo de engravidar...
Hora o medo de não engravidar.
Todo meu feminino fértil se vai...serei mutilada...não sei me despedir!
Entre um pensamento e outro, há demandas do trabalho.
O tempo não para, chega a hora de ir buscar minha filha.
Entro no carro, a música diz:
“Enquanto
isso, não nos custa insistir
Na questão do desejo, não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê que o inferno é aqui
Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo mal, a cura”
No trajeto, ainda com a música tocando, reparo na bike a frente do meu carro, calculando como desviar, percebo que o ciclista tem duas pernas mecânicas.
Meus olhos se arregalam e
começo a enxergar a palavra mutilação de outro jeito.
Tem movimento, tem forma,
tem possibilidade, tem vida...
O ultrapasso, olho pelo retrovisor e o vejo pela primeira vez ao vivo.
É o Paué!
Quase não posso acreditar no
que vejo.
Paué é um rapaz da minha região,
que no início dos anos 2000, sofreu um acidente na linha do trem e perdeu as
duas pernas.
Por ser jovem demais, na
época, houve uma comoção na cidade.
Sei sua história, li seu
livro, vi seu filme e fiz muitos alunos assistirem.
Paué logo depois do acidente
tomou conta da mídia, porque ele surfa, corre, faz ciclismo, é um atleta, sem
suas duas pernas.
Ele é exemplo de resiliência
para mim!
Mas nunca havia encontrado
com ele pessoalmente.
Todo sofrimento dele é memorável, mas um diálogo que aparece no livro e no filme, ficou marcante para mim.
Quando
ele estava prestes a deixar o hospital, ele perguntou para sua mãe:
- E agora mãe, como vou seguir
em frente? Como as pessoas vão me olhar?
E a mãe relata que foi até o banheiro, fez uma oração, voltou e respondeu:
- As pessoas vão te olhar
como você se apresentar. Apenas vamos!
E assim sigo...a música, a
lembrança, a desmistificação da palavra mutilação, me confortam de uma tal
maneira, que tenho a sensação que fui atendida: um pequeno milagre aconteceu!
Agora nós 4 demos espaço para esperança.
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